Mercado de cannabis medicinal deve movimentar R$ 1 bi em 2026
Novo cenário regulatório impulsiona mercado que já vinha em expansão. No Brasil, mais de 900 mil pacientes fazem uso regular do Canabidiol, número pode chegar a 7 milhões nos próximos anos.
Aos 18 anos, Matheus Cedrim, hoje com 33, foi dormir e acordou com o lado esquerdo do corpo completamente dormente. O que começou como uma suspeita de noite mal dormida, terminou com uma bateria de exames, visitas sucessivas ao hospital e o diagnóstico de esclerose múltipla.
Foram anos de tratamentos tradicionais, com medicamentos que provocavam graves efeitos colaterais, crises alérgicas e redução na qualidade de vida. A remissão da doença aconteceu em um caminho inesperado, longe dos grandes aportes financeiros da indústria farmacêutica e perto de uma das mais polêmicas descobertas do meio científico e a nova aposta do setor agrário brasileiro, o óleo de canabidiol.
“Hoje, eu tomo a medicação convencional para a esclerose, porque não tem como escapar dela, mas utilizo o canabidiol de forma paralela para tratar vários sintomas que não são resolvidos com o medicamento tradicional ou, até mesmo, sintomas que são efeitos colaterais do medicamento. Tudo isso sem nenhum efeito negativo vindo do óleo”, destaca Matheus.
Com a melhora, Matheus voltou a praticar atividades físicas e hoje participa de maratonas e provas de triatlo. “Mais do que tratar os sintomas, a cannabis me devolveu qualidade de vida. Não adianta estar vivo sem conseguir viver”, diz.
Primeiros passos
Desde 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), retirou o canabidiol (CBD) da lista de substâncias de uso proscrito, cuja produção, comercialização e consumo são proibidos em todo o território nacional, por não possuírem finalidade terapêutica reconhecida ou por apresentarem alto risco de dependência e abusos.
A decisão foi baseada no entendimento da agência de que o CBD é uma substância de utilidade terapêutica comprovada para quadros de saúde que apresentam resistência aos tratamentos tradicionais, incapaz de provocar dependência química.
Nos onze anos que seguiram, pessoas como Matheus puderam importar o óleo para uso próprio, desde que mediante um cadastro prévio do paciente junto à Anvisa, com validade de um ano. Para a autorização, era obrigatória a apresentação de prescrição médica, laudo e formulário específico. O modelo, embora tenha aberto o mercado, manteve o acesso restrito e dependente de produtos estrangeiros.
Novas regras
O jogo virou para o mercado do canabidiol em 2026, com a nova regulamentação da Anvisa, consolidada pelas Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) nº 1.011 a 1.015, que autorizou o cultivo da cannabis sativa em território nacional para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa. A mudança foi feita com objetivo de promover a soberania produtiva do Brasil, permitindo que a indústria nacional fabrique o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) – substância responsável pelo efeito terapêutico – em solo brasileiro, reduzindo a dependência de extratos importados e o custo final dos produtos.
Além de permitir o plantio comercial de variedades com teor de THC de até 0,3%, o novo marco garantiu liberdade científica para universidades e institutos de pesquisa desenvolverem estudos com diferentes concentrações da planta. O modelo inclui ainda o chamado Sandbox Regulatório, ambiente supervisionado que autoriza associações a produzir e fornecer derivados de cannabis sob vigilância sanitária.
Expansão
Esse novo cenário regulatório impulsiona um mercado que já vinha em expansão. O setor movimentou cerca de R$ 852 milhões em 2024 e mais de R$ 970 milhões em 2025, segundo dados da consultoria Kaya Mind. Para este ano, a expectativa do mercado é que o faturamento atinja R$ 1 bilhão, com taxas de crescimento anual entre 15% e 26%. No Brasil, mais de 900 mil pacientes fazem uso regular de cannabis medicinal, número que pode chegar a 7 milhões nos próximos anos.
Para Matheus, o impacto vai além dos números. “Quanto mais pessoas se beneficiarem, melhor. É um medicamento que vem para salvar vidas e dar qualidade de vida. Mais do que tratar os sintomas, a cannabis me devolveu a possibilidade de viver dentro da minha condição”, conta.
Cautela
A expansão do mercado acompanha também uma mudança no olhar da medicina. Segundo o médico neurologista Luiz Severo, a tendência é de que a cannabis medicinal se consolide como uma alternativa terapêutica cada vez mais acessível no Brasil. No entanto, ele alerta para os cuidados com a busca descriteriosa pelo produto.
“É preciso que isso aconteça com responsabilidade, boa indicação, produtos seguros, acompanhamento médico e informação científica. A cannabis medicinal não deve ser vista como moda, mas como uma ferramenta moderna dentro de uma medicina mais personalizada, integrativa e centrada no paciente”.
Mercado
Na prática, o crescimento do setor tem se sustentado em diferentes modelos de negócio. Associações de pacientes, empresas importadoras e, mais recentemente, iniciativas industriais começam a ocupar espaço em uma cadeia ainda em consolidação.
À frente da Aliança Medicinal, o engenheiro agrônomo Ricardo Hazin observa que o avanço do mercado ocorreu de forma orgânica, impulsionado pelos próprios pacientes. “A cannabis se difundiu pelo resultado que trouxe na vida das pessoas. Diferente de um produto tradicional, a propagação veio do benefício real, de família para família”, afirma.
A associação Pernambucana com sede Olinda, que começou com cerca de mil pacientes após autorização judicial, hoje reúne aproximadamente 17 mil associados em todo o país. “Esse crescimento exige responsabilidade técnica. Não basta a planta ser eficaz, é preciso garantir padrão e segurança no que está sendo entregue”, explica Hazin.
Para isso, a entidade desenvolveu um modelo próprio de cultivo em ambiente controlado. “Criamos um sistema em contêineres que funciona como um laboratório, transformando nossas instalações em uma fazenda urbana. Ele permite padronizar as substâncias da planta e garantir previsibilidade para o médico que vai prescrever”, explica Hazin. Segundo ele, a estrutura é escalável. “Hoje conseguimos atender 17 mil pessoas, mas temos capacidade para mais do que dobrar esse número com os módulos já instalados”.
Do lado das empresas, a lógica passa pela importação e distribuição. A Verdpharm, com sede em Vitória de Santo Antão, atua como facilitadora no acesso a produtos fabricados no exterior, principalmente nos Estados Unidos. “Utilizamos um processo de extração com CO, que garante maior pureza porque não há contato com solventes. Isso preserva melhor as moléculas da planta”, explica Romero de Deus, diretor de comunicação da empresa.
Ele destaca que a diferença regulatória entre países também impacta o produto final. “Nos Estados Unidos, é possível trabalhar com uma variedade maior de moléculas, o que amplia as aplicações terapêuticas, especialmente para dor”.
Segundo Romero, o crescimento do mercado já é evidente. “A perspectiva é que o setor movimente mais de R$ 1 bilhão em 2026. É um avanço significativo, puxado tanto pela demanda quanto pela maior disseminação de informação”, afirma.
Ele avalia que o principal desafio ainda está na comunicação. “A ciência já comprovou os benefícios. O problema hoje não está na eficácia, mas em levar essa informação de forma clara para a população”, destaca.
Público
O perfil dos pacientes também vem se ampliando. “O canabidiol atua em quatro pilares: dor, humor, estresse e inflamação. Isso vai desde casos de autismo e epilepsia até ansiedade, insônia e até performance esportiva”, explica Romero.
Segundo ele, o avanço do setor não se limita mais ao uso estritamente medicinal e começa a avançar também sobre o mercado conhecido como wellness, que inclui desde melhora do sono e redução de estresse até foco, produtividade e desempenho físico.
“Não é só quem está doente. Existe uma busca crescente por viver melhor, dormir melhor, ter mais disposição. A cannabis entra como um modulador do organismo”, diz Romero. Para ele, essa diversificação deve ampliar ainda mais o alcance econômico do segmento nos próximos anos, atraindo novos perfis de consumidores e consolidando o setor como uma das frentes mais promissoras da indústria da saúde.
Acesso
Apesar da expansão, o acesso ainda é desigual. Os custos variam de R$ 200 a R$ 500 em farmácias, podendo chegar a R$ 3 mil ou R$ 5 mil em tratamentos mais complexos. A expectativa é que a produção nacional reduza esses valores. Além disso, há impacto potencial sobre os gastos públicos, entre 2015 e 2024, o Brasil desembolsou cerca de R$ 264 milhões com o fornecimento judicial desses produtos.
Novo setor
No campo da pesquisa, a Embrapa lidera projetos para desenvolver sementes adaptadas ao Brasil, para reduzir alterações significativas nas substâncias mesmo no plantio de clima tropical.
Para os especialistas, o país começa a estruturar um novo segmento econômico, com potencial de integrar agronegócio, indústria farmacêutica e inovação científica.
Na avaliação de quem já vive essa transformação, o avanço é inevitável. “Quanto mais a gente evolui na pesquisa e produção dentro do Brasil, mais acessível fica, e maior é o impacto na vida das pessoas”, resume o engenheiro agrônomo Ricardo Hazin.
Fonte: Folhape.com.br
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