EMS compra Medley em acordo avaliado em R$ 3,2 bi e consolida liderança no segmento de genéricos

 

Por  João Sorima Neto — Rio de Janeiro e São Paulo

RESUMO 

A EMS e a francesa Sanofi anunciaram nesta sexta-feira a assinatura de um acordo definitivo de compra e venda de 100% da Medley, uma das principais marcas de genéricos do Brasil. A Sanofi é dona da Medley hoje. As empresas não revelaram o valor do negócio, mas no mercado a transação está sendo avaliada em R$ 3,2 bilhões (US$ 600 milhões).


A Medley tinha recebido propostas da indiana Sun Pharma e das brasileiras Hypera, Biolab e Aché, segundo o jornal Valor Econômico. Mas acabou vencendo a disputa ao oferecer um valor maior que suas concorrentes.

 

— Foi um processo extremamente competitivo, com tantas outras empresas de mercado, mas conseguimos concluir junto com a Sanofi a assinatura de um acordo definitivo para aquisição de 100% das ações da Medley, uma das marcas mais conhecidas de medicamentos genéricos do Brasil, e uma empresa muito bem administrada — disse Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS em entrevista onde detalhou a transação.

Ele lembrou que este não é o primeiro negócio da EMS com a Sanofi, já que antes havia adquirido a Dermacid, marca de sabonetes íntimos, da companhia de origem francesa em 2023. O valor da compra foi de R$ 366 milhões. Essa parceria, segundo analistas, também contribuiu para que a EMS fosse a escolhida.

Os genéricos são medicamentos que contêm os mesmos ingredientes ativos, na mesma dosagem e forma farmacêutica que os medicamentos de referência. Eles são produzidos após a expiração da patente de um medicamento pioneiro, permitindo que outros fabricantes façam versões equivalentes e possibilitando competição e, muitas vezes, redução do preço.


A EMS é líder no setor de genéricos com algo entre 23% a 24% de participação nesse mercado. Com a aquisição, vai incorporar mais 7% a 8%, chegando a uma fatia de cerca de 30%, mantendo a liderança. Mesmo com o avanço, o vice-presidente da EMS, Marcus Sanchez diz que não haverá concentração de mercado.

Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS — Foto: Divulgação

Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS — Foto: Divulgação

A Medley tem fábrica em Campinas e cerca de 900 funcionários e a sede da EMS está localizada em Hortolândia (SP), distante 20 quilômetros da unidade da Medley. Isso, segundo o vice-presidente, é uma questão geográfica benéfica para o negócio. Sanchez disse que a ideia é manter essa unidade, que deve receber investimentos, assim como o quadro de funcionários.


Nova fábrica

A partir da compra da Medley, existe a possibilidade de construção de uma nova fábrica, possivelmente em Manaus, onde a EMS já atua, por conta dos benefícios fiscais que vão permanecer, mesmo com a reforma tributária, disse Sanchez. A EMS anunciou recentemente uma nova onda de investimentos em expansão de fábricas, de R$ 1 bilhão nos próximos anos.

A EMS também tem investido em inovação, como sua primeira fábrica de peptídeos do país, inaugurada no complexo de Hortolândia, em 2024, onde foram aplicados R$ 20 bilhões. Isso fortalece sua capacidade de produzir medicamentos de alta complexidade, como os análogos de GLP-1, diz a empresa. A companhia fez recentemente o lançamento dos injetáveis Olire (obesidade) e Lirux (diabetes tipo 2), baseados na liraglutida.

Outras inovações incluem o Lyberdia (gotas para TDAH) e o desenvolvimento de medicamentos nanotecnológicos. O DNA do grupo, disse o vice-presidente, é de alto grau de reinvestimento. A EMS lidera o mercado farmacêutico nacional há 20 anos, lembrou Sanchez.


Queda de patente

Analistas avaliam ainda que com a expiração da patente das canetas injetáveis, neste mês de março, empresas nacionais se preparam para lançar versões genéricas ou similares mais baratas. Como a EMS já criou em 2025 uma versão nacional de sua caneta emagrecedora com liraglutida, também deve ser posicionar na semaglutida (Ozempic) assim que a patente cair.

A compra da Medley pela EMS se enquadraria nessa estratégia já que a emprea ganha tração para ampliar sua produção de genéricos, segundo analistas. O mercado de canetas injetáveis movimenta cerca de R$ 11 bilhões globalmente e a expectativa é que esse volume quase dobre com a chegada de genéricos.

— Movimentos de consolidação no setor farmacêutico, como a aquisição da Medley pela EMS, podem ser interpretados como uma estratégia para ampliar capacidade produtiva, fortalecer a indústria nacional e preparar o mercado para a chegada de novas alternativas terapêuticas mais acessíveis — diz Mara Machado, CEO do Instituto Qualisa de Gestão e especialista em Saúde Sustentável.

Ela lembra que quando medicamentos inovadores perdem a patente e passam a ter versões genéricas ou similares, ocorre um movimento importante para a sustentabilidade do sistema de saúde, porque a concorrência tende a reduzir preços e ampliar o acesso da população a tratamentos de alto custo, como é o caso da canetas injetáveis usadas no controle do diabetes e da obesidade.

A EMS informou que a transação reforça sua estratégia de crescimento no mercado farmacêutico brasileiro, ampliando escala e presença comercial. As próximas etapas, entretanto, serão definidas em outro momento. A empresa entende que a combinação entre a capacidade industrial e o portfólio da EMS com a força e o reconhecimento da marca Medley tenderão a ampliar o alcance da companhia no mercado.

O vice-presidente da companhia afirmou que a EMS tem total interesse em todos os ativos da Medley, vai preservar a marca e seus ativos e, inclusive, manter os patrocínios da marca. A Medley tem parcerias com o Comitê Olímpico do Brasil (COB) até 2028 e patrocina os esportes olímpicos do Flamengo, o Sesi Vôlei Bauru e apoia individualmente as ginastas Júlia Soares e Lorrane Oliveira.


Líder do setor de genéricos

Para Teresa Cristina Charotta, professora da FIA Business School e especialista em varejo farmacêutico, com a compra da Medley, a EMS se consolida como a líder absoluta do mercado de genéricos.

— Escala ela já tem, mas pode ganhar ainda os consumidores e pacientes da Medley. A Medley possui parceiros estratégicos, como a AstraZeneca, para alguns medicamentos que a EMS não tem e isso pode ser um diferencial competitivo — avalia.

Para ela, a Sanofi quer se focar em novos mercados de doenças raras, oncologia, biotecnologia e por isso vendeu sua unidades de genéricos. Ela diz que as duas empresas (Medley e EMS) são bem competitivas em preços ao consumidor, e acredita que haveria uma paridade no mercado.

Charotta lembra que o mercado de genéricos é pulverizado e não existe um medicamento exclusivo de um único laboratório. Exceto quando o medicamento referência é do próprio fabricante e, após a queda de patente, ele adere ao genérico para mitigar a margem perdida.

— O consumidor que utiliza medicamentos genéricos procura sempre pelo fabricante e em segundo lugar, o preço — afirma ela.


Empresa 100% nacional

A EMS é uma empresa totalmente nacional, e nasceu de uma farmácia há 62 anos. É controlada pelo empresário Carlos Sanchez, integrante da lista de bilionários brasileiros com fortuna de R$ 8 bilhões e ocupando o 50º lugar entre os mais riscos do país.

A Medley, também brasileira, foi adquirida pela Sanofi em 2009, por R$ 1,5 bilhão. Sanchez avalia que a Sanofi, uma gigante do setor de farmacêuticos, com receita de € 43 bilhões em 2025, emprestou credibilidade e trouxe evolução para a Medley.

Ele diz que a EMS agora vai ter um “bom aprendizado com esse legado” ao adquirir a Medley. A Sanofi vendeu a marca porque o mercado de genéricos deixou de ser uma prioridade global da empresa.


— Ao se incorporar ao nosso porfólio de marcas, a ideia é colocar a Medley no centro das prioridades. Estamos falando de um grupo líder de mercado adquirindo uma outra indústria farmacêutica, num mercado que é extremamente pulverizado. Nosso drive é a democratização, o acesso à saúde. Então, o grande ganhador sempre é o consumidor e assim continuará sendo — afirmou Sanchez.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos), há 102 laboratórios que fabricam genéricos no Brasil. Eles tinham participação de 40% no mercado brasileiro de medicamentos. A meta, segundo associação, é chegar a 45,12%.

Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), avalia que a marca Medley é um ativo importante no segmento de genéricos, tendo sido construída ao longo dos anos. Portanto, o negócio traz muito valor à EMS. O fato de a EMS, uma empresa brasileira, ter superado concorrentes internacionais interessados na Medley também revela a força desse setor no Brasil, diz o executivo. Ele lembra que entre os maiores laboratórios do país, os cinco primeiros já são nacionais.

— E não vejo problemas de concentração de mercado na transação devido à pulverização desse segmento — avalia Mussolini, que lembra que o setor farmacêutico cresce 10% ao ano em faturamento e movimentou em 2025 cerca de R$ 226 bilhões no Brasil.

Desse total, R$ 194 bilhões são de vendas de produtos “de marca”, enquanto R$ 32 bilhões vieram do mercado de genéricos, que representa 14,4% do setor.


Portfólios convergentes

Os portfólios de medicamentos das duas empresas são mais convergentes do que complementares, disse Sanchez, mas os consumidores costumam ter predileção por algumas marcas. Isso justifica a manutenção dos dois nomes mercado. Ele acredita que será possível obter sinergias de portfólio no curto prazo e, mais tarde, virão ganhos operacionais , inclusive repassando para a nova empresa do grupo algumas moléculas já desenvolvidas.

Ele cita sinergias industriais, logísticas e comerciais, considerando a complementaridade de portfólios, a escala produtiva e a presença consolidada das duas companhias no mercado brasileiro. A proximidade de algumas estruturas industriais também pode contribuir para ganhos de eficiência ao longo do tempo.

— Vamos ter um olhar cruzado do que eventualmente uma empresa poderia fazer de fabricação para outra, do que essas empresas deveriam manter 100% segregada do ponto de vista de operações, lembrando que lá na frente no comercial isso sempre será segregado — disse.


A Medley continuará sendo gerenciada pela Sanofi durante o período de aprovação regulatória anterior ao fechamento da transação, segundo comunicado da EMS. O negócio está sujeito à aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e outras condições de fechamento.

Para Sanchez, a avaliação do Cade pode demorar até um ano. A expectativa da empresa, no entanto, é que a análise seja mais célere, uma vez que o mercado farmacêutico não tem grande concentração. Ele acredita que a resposta do órgão regulador deve acontecer ainda este ano.

Para Fernando Sampaio, presidente da Sanofi Brasil, o acordo reflete a estratégia da empresa “de focar seus investimentos e expertise em medicamentos biofarmacêuticos inovadores e vacinas” no país.

Fonte: O globo.

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