Indústria veterinária acompanha alta do consumo animal

Por Nathália Cabral Pinto

A indústria de medicamentos veterinários deixou de ser um segmento periférico para ocupar posição estratégica em duas frentes que seguem avançando no Brasil: a produção de proteínas animais e o mercado pet. De um lado, a pecuária intensiva exige soluções mais robustas de prevenção, controle sanitário, biosseguridade e produtividade. De outro, o aumento do número de animais de companhia, somado à maior disposição das famílias para investir em saúde e bem-estar, sustenta um consumo mais sofisticado de produtos veterinários.

Os números confirmam esse movimento. O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) informou que o setor de saúde animal no Brasil cresceu 10,1% em 2024 e atingiu R$ 11,9 bilhões em vendas. Dentro desse mercado, o segmento de bovinos respondeu por 47% do faturamento, enquanto os animais de companhia chegaram a 27%, praticamente o dobro da participação observada há uma década. Na sequência aparecem avicultura, com 14%, e suínos, com 10%. Entre as classes terapêuticas, os antiparasitários lideraram as vendas, com 29%, seguidos pelos biológicos, como vacinas, com 21%.

No mercado pet, a expansão também segue relevante, ainda que em ritmo mais moderado. Projeção divulgada em documento hospedado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, com dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil (IPB), indicou faturamento de R$ 78 bilhões para 2025. Outro levantamento das entidades mostrou que os produtos veterinários para pets devem encerrar 2024 com R$ 8 bilhões em faturamento, enquanto os serviços veterinários alcançam R$ 7,6 bilhões. No mesmo documento, Abinpet e IPB destacam que os segmentos com maior alta entre 2023 e 2024 foram justamente produtos veterinários e serviços veterinários, com crescimento de 16% e 15%, respectivamente.

Essa pressão de demanda não vem apenas do ambiente urbano. As perspectivas para a cadeia de proteínas animais seguem positivas. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) projetou, para 2025, produção de 15,32 milhões de toneladas de carne de frango e 5,55 milhões de toneladas de carne suína no Brasil, com elevação também do consumo per capita. Em paralelo, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estimam que o consumo global de carne de frango crescerá cerca de 21% até 2034, respondendo por 62% do aumento adicional do consumo de carne no mundo, e apontam o Brasil entre os países com maior avanço esperado no consumo.

Do agronegócio ao pet, a exigência técnica aumenta

Esse cenário muda o perfil da demanda por medicamentos veterinários. No campo, cresce a necessidade de soluções capazes de sustentar produtividade, reduzir perdas sanitárias e atender aos padrões cada vez mais rigorosos de qualidade, rastreabilidade e segurança dos alimentos. Em sistemas intensivos de bovinos, aves e suínos, qualquer falha sanitária se converte rapidamente em impacto econômico. Não por acaso, o mercado de saúde animal continua fortemente ancorado na pecuária, mas com avanço consistente das linhas voltadas aos animais de companhia.

No universo pet, a lógica também se sofisticou. A Abinpet informa que o Brasil registrou faturamento de R$ 75,4 bilhões em 2024 e que há, estatisticamente, 1,8 animal de estimação por residência no país. Em documento setorial de 2025, apresentado pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), com base em dados do IPB e da Abinpet, a população pet brasileira aparece em 170 milhões de animais. Isso significa uma base de consumo ampla e recorrente, que demanda não apenas alimento, mas também vacinas, antiparasitários e outras classes de medicamentos e suplementos, terapias e serviços de acompanhamento.

Registro no MAPA exige preparo multidisciplinar

Há um ponto que costuma ser subestimado fora do setor: fabricar e registrar um medicamento veterinário no Brasil está longe de ser um processo simples. Na Carta de Serviços do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para registro de produtos veterinários de natureza farmacêutica, o órgão informa que a solicitação deve ser acompanhada de relatório técnico, relatório de fabricação da partida piloto, estudos de estabilidade, estudos de eficácia, estudos de segurança para as espécies-alvo e, quando o produto for destinado a animais produtores de alimentos, estudos que comprovem o período de carência. O próprio MAPA informa prazo tácito de até 720 dias após a entrega da solicitação para a emissão do registro (Portaria 196/2021).

Leia também: Expectativa positiva no segmento vet para 2026

A complexidade não termina no deferimento inicial. A Instrução Normativa SDA nº 23, de 2016, mostra que mudanças posteriores, como ampliação de indicação para nova espécie, alteração de posologia, inclusão de nova via de administração, ajuste de fórmula, alteração de condições de conservação ou ampliação de prazo de validade, podem depender de autorização prévia e de nova documentação técnica, com relatórios de eficácia, segurança, depleção de resíduos, estabilidade e novos modelos de rotulagem.

Em outras palavras, o ciclo de vida regulatório do produto veterinário exige domínio contínuo de desenvolvimento, qualidade, produção, assuntos regulatórios e gestão técnica.

Esse é o ponto em que muitas empresas encontram seu gargalo real. O mercado cresce, mas o setor não consegue avançar de forma consistente apenas com profissionais especializados em uma única etapa da cadeia. A indústria veterinária precisa de equipes capazes de entender do insumo ao produto final, do laboratório ao dossiê, da produção ao posicionamento técnico-comercial. Sem essa base, o crescimento do mercado vira apenas volume, não competitividade.

Capacitação passa a ser ativo estratégico

A indústria veterinária brasileira não enfrenta falta de oportunidade. Enfrenta, sobretudo, a necessidade de converter expansão de mercado em capacidade técnica real. E isso depende menos de discurso sobre crescimento e mais de formação consistente para lidar com um setor que se tornou mais exigente, mais regulado e mais estratégico.

Para quem pretende atuar ou avançar nessa cadeia e entender essa transformação com profundidade, a Pós-Graduação em Indústria Veterinária Tecnologia Industrial de Medicamentos, do CDPI Pharma, aborda desenvolvimento de produtos veterinários, seleção de materiais e insumos, estudos aplicáveis, processos produtivos, controle e garantia da qualidade, registro de empresas e produtos, contexto regulatório, comercialização, marketing e gestão dentre outros aspectos imprescindíveis para o domínio de toda a complexidade técnica envolvida nesse segmento.

Na prática, a proposta do curso responde a uma demanda concreta da indústria veterinária: formar profissionais com visão ampla da cadeia produtiva e capazes de transitar entre áreas técnicas, industriais e regulatórias.

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* Nathália Cabral Pinto é coordenadora do curso de pós-graduação Indústria Veterinária Tecnologia Industrial de Medicamentos do CDPI Pharma. É diretora e consultora Sênior de Assuntos Regulatórios e Desenvolvimento de Produtos e Fundadora da NC Regulatory Solutions, uma empresa voltada para consultoria regulatória em áreas como produtos veterinários, alimentação animal, saneantes, entre outros.