TCC premiado: inovação redefine a biodisponibilidade dos fármacos

Por Erika Prates*

Na pós-graduação em Pesquisa e Desenvolvimento Farmacotécnico e Produção de Medicamentos do CDPI Pharma, tive o privilégio de acompanhar o desenvolvimento de um trabalho que sintetiza, de forma exemplar, o que se espera de uma formação voltada à inovação e ao rigor científico. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) das alunas Luthyelle Caroline Xavier e Mariana Borges Giles Ferrer, intitulado ‘Inovação em formulações orais: aumentando a biodisponibilidade e eficácia terapêutica de fármacos, recebeu nota máxima, e não apenas pelo domínio técnico, mas pela relevância e atualidade do tema para a indústria farmacêutica contemporânea.

A biodisponibilidade, conceito central da farmacocinética, refere-se à fração do fármaco que atinge a circulação sistêmica após a administração. Em outras palavras, é o quanto do medicamento realmente chega ao organismo para exercer seu efeito terapêutico. Quando a via oral é escolhida (a mais segura, prática e economicamente vantajosa), uma série de barreiras fisiológicas e bioquímicas podem comprometer a absorção: pH gástrico, motilidade intestinal, metabolismo de primeira passagem e até interações com excipientes.

A pesquisa das alunas parte justamente desse ponto: compreender por que tantos medicamentos apresentam baixa biodisponibilidade e quais estratégias podem ser empregadas para superá-la. É fato que a adesão do paciente e a eficácia terapêutica são cruciais para o sucesso de qualquer tratamento, por isso, otimizar a formulação oral não é apenas uma questão técnica, mas também ética, pois trata-se de garantir que o medicamento cumpra o que promete.

As estratégias inovadoras de formulação

Entre as técnicas analisadas, o trabalho destaca sistemas nanoestruturados, nanoencapsulação e sistemas autoemulsionantes como abordagens promissoras para aprimorar a solubilidade, a estabilidade e a absorção dos fármacos.

A nanotecnologia, por exemplo, vem se consolidando como uma das ferramentas mais revolucionárias da farmacotécnica moderna. Ao reduzir o tamanho das partículas para a escala nanométrica, é possível aumentar a superfície de contato com os fluidos biológicos, o que favorece uma dissolução mais rápida e uma absorção mais eficiente. Além disso, as nanopartículas permitem uma liberação controlada e seletiva, reduzindo efeitos adversos e aumentando a concentração plasmática do fármaco.

Outro destaque do estudo são os sistemas de liberação controlada, que possibilitam manter níveis terapêuticos mais estáveis no sangue, diminuindo a frequência de administração e melhorando a adesão ao tratamento. Em um contexto de doenças crônicas, em que o uso contínuo de medicamentos é indispensável, essa abordagem representa um ganho significativo em qualidade de vida para o paciente e em previsibilidade para o clínico.

O papel dos excipientes e dos lipídios

Como ressaltaram as autoras do trabalho, “a solubilidade em água é um dos principais desafios na formulação de medicamentos, uma vez que a baixa solubilidade pode comprometer significativamente a absorção do fármaco e, consequentemente, sua eficácia terapêutica”.

Para as autoras, “estratégias inovadoras, como sistemas micro e nanoestruturados, têm ganhado destaque na tentativa de melhorar a proteção e absorção dos medicamentos ao superar barreiras biológicas”.

Elas também destacam que “a utilização técnica de autoemulsionantes oferece ganhos significativos no aumento da biodisponibilidade de fármacos com baixa solubilidade em água, particularmente em substâncias lipofílicas”, uma vez que “esse sistema de liberação melhora a solubilidade e a absorção ao promover a emulsificação espontânea do fármaco em contato com o fluido gastrointestinal”.

 

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Essas observações, presentes no TCC, reforçam como os excipientes e as formulações lipídicas têm papel ativo no desempenho terapêutico dos medicamentos. Tradicionalmente vistos apenas como coadjuvantes, eles ganham protagonismo quando se busca superar limitações de solubilidade e permeabilidade.

As formulações baseadas em lipídios, por exemplo, têm se mostrado altamente eficazes para medicamentos de baixa solubilidade e permeabilidade. Elas favorecem a formação de estruturas coloidais, como micelas e vesículas, que encapsulam o princípio ativo e o protegem da degradação. Isso se traduz em uma absorção mais previsível e eficiente, além de maior estabilidade química e física durante o armazenamento.

Já os sistemas autoemulsionantes (SEDDS, SMEDDS e SNEDDS) promovem a emulsificação espontânea do fármaco em contato com os fluidos gastrointestinais, gerando micro ou nanoemulsões que facilitam a absorção intestinal. Essa tecnologia é particularmente vantajosa para fármacos lipofílicos e permite contornar o metabolismo de primeira passagem hepática, um dos grandes desafios da administração oral.

Nanotecnologia e biotecnologia: convergência estratégica

A convergência entre nanotecnologia e biotecnologia também aparece como um caminho de futuro. A aplicação de biomacromoléculas (como polissacarídeos, peptídeos e microRNAs) tem demonstrado resultados animadores no aumento da permeabilidade intestinal e na regulação da expressão proteica, mecanismos que ampliam a absorção e reduzem a variabilidade individual da resposta terapêutica.

Esses avanços indicam uma tendência clara: o desenvolvimento farmacêutico caminha para soluções híbridas, que combinam diferentes tecnologias e abordagens moleculares para alcançar um equilíbrio ideal entre eficácia, segurança e custo.

Desafios ainda presentes

Apesar dos resultados promissores, as autoras apontam limitações importantes. Entre elas, o alto custo das tecnologias de ponta, os desafios de escalabilidade industrial e as questões regulatórias relacionadas à segurança em longo prazo. De fato, a transposição das descobertas laboratoriais para a produção em larga escala continua sendo uma das maiores barreiras da inovação farmacotécnica.

Ainda assim, o trabalho reforça que esses desafios não diminuem a urgência de avançar em pesquisas que possam tornar essas soluções mais acessíveis. Pelo contrário, são um chamado à colaboração entre indústria, academia e agências regulatórias para viabilizar produtos mais eficazes e sustentáveis.

Um olhar da P&D sobre o futuro

Como coordenadora de P&D Educacional e consultora técnica do CDPI Pharma, vejo nessa pesquisa um reflexo do espírito que queremos estimular em nossos alunos e profissionais: curiosidade científica, olhar crítico sobre as limitações do mercado e, acima de tudo, compromisso com a inovação que gera impacto real.

A indústria farmacêutica está diante de um novo paradigma, em que desenvolver medicamentos não é apenas formular, mas compreender profundamente os fenômenos que regem sua biodisponibilidade e desempenho clínico. Trabalhos como o de Luthyelle e Mariana demonstram que o conhecimento técnico, aliado à criatividade e à pesquisa de qualidade, pode transformar os desafios de solubilidade e absorção em oportunidades para revolucionar tratamentos.

Mais do que uma revisão teórica sobre avanços farmacotécnicos, o trabalho de Luthyelle e Mariana representa uma contribuição concreta para o futuro do desenvolvimento de medicamentos. Ao investigar soluções que ampliam a biodisponibilidade — um dos maiores entraves da farmacologia moderna —, o estudo reforça a importância de unir ciência aplicada e inovação tecnológica para garantir que os medicamentos cheguem ao paciente com máxima eficácia e segurança.

Essa visão integra o propósito central do TCC: transformar o conhecimento acadêmico em ferramenta de impacto real na saúde pública e na indústria farmacêutica, reduzindo custos, melhorando a adesão terapêutica e impulsionando práticas produtivas mais eficientes. A pesquisa das alunas exemplifica como a formação científica, quando aliada à curiosidade investigativa, é capaz de gerar avanços que ultrapassam o laboratório e chegam à vida das pessoas.

Para ler o TCC completo de Luthyelle Caroline Xavier e Mariana Borges Giles Ferrer, clique AQUI

 

Como se qualificar

Para saber mais esse tema e como a indústria farmacêutica vem atravessando mudanças rápidas e enfrentando inúmeros desafios, O CDPI Pharma lançou a pós-graduação em P&D Farmacotécnico e Produção de Medicamentos  capacita e forma profissionais capazes de atuar e desempenhar atividades relacionadas ao desenvolvimento farmacotécnico, pesquisa, desenvolvimento/concepção de produtos e transferência destes para o ambiente produtivo, bem como compreender toda a dinâmica de planejamento, estratégias e controle de produção, com uso integrado com I.A. Tudo isso integrado ao novo conceito de ciclo de vida de produtos da RDC 658/2022.

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