Mulheres conduzem avanços decisivos para a humanidade

Por Vania Iff Cortes

As mulheres ainda estão longe da paridade na inovação global, mas os números mostram avanço concreto. Entre 2010 e 2024, a participação feminina entre inventores listados em pedidos internacionais de patente subiu de 11,6% para 18%, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Nas áreas de farmacêuticos e biotecnologia, esse protagonismo aparece de forma ainda mais expressiva: em 2024, 63% dos pedidos internacionais nessas áreas traziam ao menos uma mulher entre os inventores. É nesse território, o das descobertas, que saem do laboratório para transformar a vida real, que a trajetória das cientistas ganha força renovada.

No Brasil, esse avanço também passa pela formação. As mulheres já representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação e 58% das bolsistas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, um dado relevante em um país em que a pesquisa e a inovação dependem da qualificação de alto nível. A base científica feminina existe, cresce e se especializa, ainda que o reconhecimento e o acesso ao topo da carreira não avancem na mesma velocidade.

A história da ciência mostra, no entanto, que talento e reconhecimento raramente caminharam juntos para as mulheres. Por séculos, elas atuaram nos bastidores de descobertas decisivas, muitas vezes sob a sombra de colegas homens que colheram os louros de seus esforços.

A história do Prêmio Nobel é marcada por omissões gritantes. Lise Meitner, a física que ajudou a interpretar a fissão nuclear, viu Otto Hahn receber sozinho o prêmio em 1944. Rosalind Franklin produziu a célebre Fotografia 51, peça essencial para a compreensão da estrutura do DNA, mas não recebeu em vida o mesmo reconhecimento concedido a Watson, Crick e Wilkins. Nas categorias científicas do Nobel, Física, Química e Fisiologia ou Medicina, as premiações concedidas a mulheres somavam 27 até 2025, diante de uma larga predominância masculina.

O preconceito de gênero frequentemente se somou a outras barreiras, como o racismo. Alice Ball, química negra, desenvolveu o tratamento mais eficaz contra a hanseníase na primeira metade do século XX, mas seus resultados circularam sem o devido crédito, algo corrigido apenas muito tempo depois.

Essa resistência também marcou a trajetória de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. As chamadas calculadoras humanas da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço provaram que a matemática não conhece cor e foram fundamentais para missões decisivas do programa espacial norte-americano.

Para entender a dimensão dessa disparidade, basta olhar para Marie Curie. Ela foi a primeira pessoa a conquistar dois prêmios Nobel em áreas científicas distintas, mas inicialmente nem sequer havia sido incluída entre os nomes propostos ao prêmio de 1903 e só passou a constar após a insistência de Pierre Curie.

Imagine o quanto a ciência teria evoluído se o preconceito não tivesse barrado o acesso de milhões de mulheres à pesquisa com respeito e oportunidades iguais. A exclusão não era apenas acadêmica, mas também material. Ada Lovelace, no século XIX, escreveu o que a história reconhece como o primeiro programa de computador publicado, tornando-se referência fundadora da computação.

Durante décadas, no entanto, sua contribuição foi tratada como apêndice da trajetória de Charles Babbage. Ao excluir as mulheres, a humanidade descartou metade de seu potencial criativo e analítico por séculos. A falta de representatividade gerou lacunas perigosas: durante anos, testes de medicamentos e estudos de anatomia foram conduzidos quase exclusivamente em corpos masculinos, ignorando particularidades biológicas femininas.

Novos rumos

Felizmente, o cenário vem mudando, embora em ritmo ainda insuficiente. Na França, foi apresentado em 2026 o projeto para inscrever na Torre Eiffel o nome de 72 cientistas mulheres, em resposta simbólica ao fato de que o monumento homenageia historicamente apenas 72 homens.

No Brasil, além das pioneiras do passado, o país também projeta nomes contemporâneos, como a química Lívia Eberlin, que ganhou reconhecimento internacional com a MasSpec Pen, tecnologia apresentada em 2017 na Universidade do Texas em Austin e capaz de identificar tecidos cancerígenos em segundos durante uma cirurgia. Sua inovação promete impacto relevante na oncologia.

Na saúde pública, Jaqueline Goes de Jesus ganhou projeção mundial em 2020 ao integrar a equipe que realizou o sequenciamento dos primeiros genomas do vírus SARS-CoV-2 no Brasil em apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso no país. O resultado demonstrou capacidade científica e ajudou no monitoramento inicial da pandemia de Covid-19.

Ainda na biotecnologia, a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desenvolveu a polilaminina, atualmente autorizada para fase 1 de estudo clínico em humanos. A substância já apresentou resultados promissores em pesquisas anteriores sobre lesão medular, embora a etapa atual tenha como foco principal verificar a segurança do produto.

Menos barreiras

Atualmente, o fomento a jovens talentos é o que pode garantir que as barreiras sistêmicas continuem caindo. Um exemplo inspirador é o de Ana Beatriz Araújo Santa Cruz Goyanna, aluna da rede pública do Distrito Federal que conquistou, em dezembro de 2025, uma bolsa integral estimada em R$ 2 milhões para cursar Neurociência na Universidade de Harvard.

Com início previsto para agosto de 2026, a trajetória de Bia reflete uma dedicação iniciada ainda no Brasil: desde 2021, ela é bolsista de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico na Universidade de Brasília e foi medalhista de ouro na Olimpíada Brasileira de Neurociências.

Além disso, Ana Beatriz fundou o Juventude pelo SUS, podcast que conta histórias de profissionais da saúde pública e, como voluntária, redigiu 17 projetos de lei voltados à saúde e à educação, atualmente em tramitação. Ana Beatriz sonha em melhorar o acesso à saúde pública no Brasil e tem a meta de conquistar o primeiro Nobel de Medicina para o país.

Ao lado de outras pioneiras contemporâneas, como Luanne de Oliveira, que também rompeu fronteiras ao garantir bolsa integral na Universidade de Chicago após destaque em competições científicas, elas simbolizam uma nova geração de cientistas brasileiras e um lembrete de que a ciência brasileira, quando apoiada, tem potencial para liderar descobertas globais.

Acesso à educação

Estimular estudantes como essas e outras jovens reforça que, quando o acesso à educação e à pesquisa é democratizado, o talento brasileiro rompe fronteiras impostas pelo subdesenvolvimento e pelo preconceito. Investir nessas trajetórias é uma das formas mais concretas de fortalecer a autonomia tecnológica de uma nação.

Entretanto, para que o futuro seja mais equilibrado, ainda é necessário enfrentar o fenômeno conhecido como teto de vidro. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, as mulheres representam 33% dos pesquisadores no mundo e 35% dos graduados em STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A jornada das meninas em direção a essas carreiras começa ainda na educação básica, com o enfrentamento do estereótipo de que as áreas exatas pertencem aos homens.

Neste mês das mulheres, honrar as que foram silenciadas no passado e reconhecer as que lideram o futuro é mais do que um gesto simbólico. De Dorothy Hodgkin, que ajudou a desvendar a estrutura da insulina, a Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, que revolucionaram a edição genética com o CRISPR, o rastro da inteligência feminina na ciência é incontornável.

Quando há oportunidade, a excelência feminina não conhece limites. A lição deixada por essas pioneiras é clara: a ciência não é masculina nem feminina. Ela é humana, e só atingirá seu ápice quando todos os talentos forem reconhecidos e ocuparem, por direito, os espaços de poder. O legado a ser deixado às próximas gerações deve ser o de um mundo em que uma jovem cientista não precise ser exceção para ser ouvida, mas parte de uma norma em que curiosidade e competência sejam os únicos critérios de valor.

Capacitação farmacêutica industrial

Em um setor em que ciência, regulação, produção e qualidade caminham juntas, a formação deixou de ser apenas etapa acadêmica para se tornar parte da competitividade profissional. Nesse cenário, o CDPI Pharma atua na formação de profissionais para a indústria, com foco em capacitação técnica voltada ao mercado industrial farmacêutico.

Na graduação, a instituição oferece formação superior voltada à gestão e à produção industrial, com proposta de desenvolver uma visão ampla do funcionamento da indústria farmacêutica.

Já na pós-graduação, o CDPI amplia essa formação com especializações voltadas a temas estratégicos da indústria farmacêutica, como operações industriais, qualidade, desenvolvimento analítico, assuntos regulatórios, estatística aplicada, pesquisa e desenvolvimento, produtos biológicos, medicamentos estéreis e indústria veterinária. A proposta é acompanhar a complexidade crescente do setor e oferecer atualização técnica para profissionais que precisam atuar com maior profundidade e visão prática.

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Vânia Iff Côrtes é diretora de Novos Negócios do CDPI Pharma Consultoria, farmacêutica e engenheira química, com expertise em novos negócios, projeto, regularização e auditoria de empresas, transferência de tecnologia e atuação transversal em assuntos regulatórios, P&D, produção, qualidade, logística e manutenção.

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