Programa do ministério da saúde busca conectar pesquisa e mercado farmacológico
Os caminhos para buscar a inovação na pesquisa sobre saúde foi o tema de uma mesa-redonda coordenada pela economista Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (SCTIE) do Ministério da Saúde. Ela anunciou o lançamento recente do Programa de Inovação Radical em Saúde, que pretende desenvolver tecnologias estratégicas, conectar pesquisa e mercado, e fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS).
O volume de recursos movimentados pelo mercado global da saúde aumenta a importância de desenvolver inovações por aqui. Um exemplo recente são as chamadas canetas emagrecedoras que, no ano passado, de acordo com Negri, provocaram um salto de importações de medicamentos no Brasil. “Precisamos de inovações que também nos permitam dar um salto de exportação.”
Ela propõe pensar em como cuidar da população em um país que envelheceu antes de ficar rico. “Essa situação pressiona muito os custos do sistema de saúde e precisamos dar conta de atender e gerar renda para o setor de saúde, tornando nossa indústria competitiva.” Outros desafios listados por ela são os eventos climáticos extremos, a emergência de novos microrganismos patogênicos e o câncer. “A genômica e as terapias avançadas geram possibilidades de tratamento que até agora não existiam.”
Negri explicou que o programa terá duas esteiras: a prestação de serviços tecnológicos para o setor produtivo e o apoio ao desenvolvimento de projetos de inovação radical em saúde. “Havia um vácuo de infraestruturas com escala, equipamentos e equipe técnica para fazer pesquisa e desenvolvimento que atendesse ao setor produtivo: é o que estamos estabelecendo.” No primeiro momento, o centro-âncora será o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, onde há estruturas que permitem fazer a caracterização de moléculas e uma diversidade de ensaios.
“É um privilégio e uma oportunidade termos sido identificados como parceiros para o Programa de Inovação Radical em Saúde”, disse a bióloga Maria Augusta Arruda, diretora do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), que faz parte do CNPEM. O centro também inclui o laboratório Sirius, que permite sofisticadas análises atômicas de materiais por meio de uma fonte de luz síncrotron de quarta geração, o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) e o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR). Está em construção o Orion, um complexo de Biossegurança máxima (nível 4) para estudo de patógenos.
Depois, à medida que se identificam gargalos na pesquisa e desenvolvimento, outros centros-âncora com expertises complementares devem ser selecionados. “Serão infraestruturas para acelerar inovação do setor produtivo no país inteiro, que poderão ser usadas por toda a comunidade acadêmica e empresarial”, planeja Fernanda De Negri.
A iniciativa ainda está em formação e depende da criação de um comitê que vai fazer a seleção dos projetos. A ideia é que inclua representantes do meio acadêmico que possam avaliar o mérito científico das propostas, assim como representantes do mercado que entendam a viabilidade comercial, e da área regulatória que definam os parâmetros essenciais para que descobertas possam tornar-se produtos.
Outra iniciativa mencionada por Negri é o Programa Genomas do Brasil, que busca ampliar possibilidades de medicina de precisão por meio do sequenciamento de milhares de genomas da população. “Vamos chegar ao final do ano com 100 mil genomas sequenciados, muita informação genética que pode dar origem a novos fármacos.” Mas, além de analisar o DNA, é preciso construir uma plataforma integrada de dados genômicos que permita compartilhar esses dados, de forma segura, com a comunidade científica interessada em fazer avanços a partir dessas informações. “Estamos discutindo a governança com especialistas na área”, afirma ela.
Com centros de competência para a produção de vacinas e de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) a partir da biodiversidade, o Ministério da Saúde pretende alavancar a presença brasileira no mercado ligado à saúde. O imunologista Helton Santiago, da Universidade Federal de Minas Gerais, integra o Centro de Tecnologia de Vacinas (CT-Vacinas) e reforça a necessidade da inovação radical. “As vacinas têm um impacto grande na saúde pública, mas importamos 90% da matéria-prima para a sua produção.” Essa importação demora e, segundo ele, a pesquisa não costuma ser feita com as boas práticas necessárias ao desenvolvimento de um produto. “O Brasil tem excelente pesquisa básica, excelente pesquisa clínica, mas é deficiente na transição; não há uma ponte para o mercado.”
O grupo de Minas Gerais está desenvolvendo a Spin-Tec, contra a covid-19, a primeira vacina completamente desenvolvida no País. Já conseguiu concluir a fase 2 de testes clínicos, que avalia a segurança em um conjunto restrito de voluntários, e agora está planejando a fase 3 – que, se bem-sucedida, permite o registro do produto. O problema é que a tramitação com a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) já leva mais de um ano. “Não é possível fazer inovação assim”, protestou Santiago. Ele relatou que o governo detectou esses gargalos e criou o Centro Nacional de Vacinas, que deve permitir a realização de todo o ciclo de produção e agilizar o processo. “O Brasil está resolvendo o financiamento, a infraestrutura e os recursos humanos, mas ainda falta o elo regulatório”, ressalva o pesquisador da UFMG.
“Como podemos fazer mais pesquisa e transladar mais essa pesquisa para produtos?”, perguntou Glaucius Oliva, do Instituto de Física do campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e consultor da empresa farmacêutica EMS. Segundo ele, há avanços nas possibilidades de financiamento porque, desde 2023, é proibido o contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o que significa que os fundos arrecadados são aplicados em pesquisa. Mesmo assim, o orçamento é apertado e a competição intensa. Os meandros também são complexos e envolvem a necessidade de parcerias com empresas.
Além disso, o trajeto entre uma molécula detectada e um fármaco não é nada linear. Depois de encontrar efeitos promissores em alguma substância, os pesquisadores isolam, caracterizam e sintetizam a molécula, que depois precisa ser testada, primeiro em células e tecidos isolados e depois em animais, antes de chegar ao ser humano. Pode ser necessário sintetizar milhares de moléculas, que em testes sucessivos de eficácia e potência se mostram insatisfatórias. Poucas sobrevivem ao funil das sucessivas fases de pesquisa. “É como procurar um poço de petróleo”, comparou Oliva. “Podemos furar, furar, furar e nunca encontrar.” Mas ele tem esperanças de que o novo programa preencha o vácuo e traga bons resultados, a partir de uma opção política que permita um maior volume de financiamento para esse tipo de pesquisa.
Fonte: SBPC
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