TCC nota 10 mostra como a nanotecnologia pode redesenhar a indústria

Por Chrislaine Soares

As doenças crônicas não transmissíveis deixaram de ser tendência e viraram o centro da demanda terapêutica. Isso pressiona a indústria farmacêutica por algo que nem sempre cabe nas formas farmacêuticas tradicionais: mais eficácia, menos toxicidade e desempenho mais previsível em populações que convivem com tratamentos por anos.

Foi com esse pano de fundo que eu li o TCC Revisão de Literatura: a Nanotecnologia Aplicada à Fabricação de Medicamentos, produzido por Sara Matias Silva, discente do Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento Analítico Aplicado à Indústria Farmacêutica do CDPI Pharma – Centro de Desenvolvimento Profissional Industrial.

As doenças crônicas como o diabetes, o câncer, doenças respiratórias e autoimunes são na atualidade o centro da demanda terapêutica. Associado ao aumento da expectativa de vida média dos indivíduos, há a elevação da incidência das doenças crônicas, sendo de interesse de saúde pública, uma vez que são doenças silenciosas, que acompanham até o fim da vida e que podem levar diferentes graus de agravamento.

No trabalho, a autora organiza evidências de literatura-científica para sustentar a proposta: ao permitir controlar a liberação de fármacos no organismo, a nanotecnologia possibilita elevar a biodisponibilidade e reduzir a dose terapêutica, e, com isso, abrir espaço para medicamentos mais seguros e efetivos. Ao mesmo tempo, ela aponta que a evolução dessa frente no Brasil ainda é lenta e depende de investimentos consistentes, tanto públicos quanto privados.

Para entender por que isso é relevante para a fabricação, o TCC volta ao fundamento: nanotecnologia é operar materiais em escala nanométrica (de 0,1 a 100 nm), criando estruturas com propriedades inéditas e potencial industrial direto.

Da nanoescala ao produto final

A principal ponte entre ‘nano’ e chão de fábrica, do ponto de vista farmacêutico, está nos nanocarreadores. Eles funcionam como sistemas de transporte: carregam o fármaco até o sítio de ação, com melhor controle de liberação e maior previsibilidade terapêutica. Entre os vetores mais recorrentes na literatura revisada aparecem lipossomas, micelas, nanopartículas lipídicas e poliméricas e nanocristais, estes últimos com papel importante quando o problema é baixa hidrossolubilidade e necessidade de liberação controlada.

O trabalho detalha, por exemplo, como lipossomas podem acomodar substâncias hidrofílicas e lipofílicas e por que isso interessa à indústria: biocompatibilidade, menor toxicidade e capacidade de orientar a entrega do fármaco ao alvo específico.,.

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Na sequência, a autora descreve características de outros sistemas com implicações produtivas relevantes. As nanopartículas lipídicas, por exemplo, têm como vantagem a possibilidade de preparação sem solventes orgânicos e podem ser produzidas em grandes quantidades por técnicas como mistura em alta pressão.

Já as nanopartículas poliméricas (nanocápsulas e nanoesferas) ampliam possibilidades de administração (injetável, oral, tópica e implantes), com liberação gradativa.

O que muda no tratamento e no mercado

O mérito do TCC é não ficar no discurso abstrato. Em oncologia, por exemplo, a autora destaca a lógica de vetorização: -as nanocápsulas tendem a se acumular mais em regiões tumorais (onde o espaço intercelular é maior), liberando o fármaco de forma direcionada e poupando tecidos saudáveis.

Ela também traz evidências de aplicação com recorte quantitativo: Paclitaxel vinculado a nanopartículas de ouro (NpsAu) com direcionamento seletivo a mitocôndrias levou a uma resposta total média positiva de 87,5% em um grupo de 195 pacientes com câncer cervical e maior tempo livre de progressão (24 meses a mais) quando comparado ao controle.

Em neurologia, o TCC menciona estratégias promissoras para o tratamento de Alzheimer, por meio de dendrímeros, que restringem a toxicidade de drogas como Tacrina, e elevam o potencial terapêutico. Associações com Galantamina e Memantina mostram taxa de liberação acima de 80%, e 100 % de biodisponibilidade desses fármacos, o que constata a correlação estratégica da nanotecnologia entre a formulação e a redução da dose.: um tipo de dado que conversa diretamente com racional de redução de dose e redesenho de formulação.

A autora ainda aponta aplicações em doenças infecciosas: lipossomas encapsulando artemeter para malária, apresentaram biodisponibilidade relatada de 97,91% por via intravenosa versus 31,83% por via oral.

Por fim, há um ponto industrial frequentemente subestimado no debate público: nanoestruturas podem proteger o fármaco de condições que degradam o produto (luz, temperatura, umidade), reforçando segurança e efetividade, o que, em termos práticos, influência diretamente os requisitos de qualidade como a estabilidade físico-química, e as condições de embalagem e armazenamento.

Desafios no Brasil: financiamento, patentes e padronização

Aqui o trabalho fica mais desconfortável — e mais útil para quem decide. A autora mostra que o Brasil ampliou investimentos na área, mas ainda de forma aquém do necessário para acelerar a inovação. Um sinal disso aparece no perfil de patentes: apesar do aumento e da triplicação de solicitações em 2020 (comparadas aos 10 anos anteriores, segundo a fonte citada no TCC), 79,1% foram pleiteadas por empresas estrangeiras.

Outro ponto é o financiamento. O TCC registra investimentos governamentais de R$ 160 milhões entre 2000 e 2007, chegando a R$ 360 milhões no total ao somar iniciativa privada — e ressalta que, mesmo assim, o custo de infraestrutura, mão de obra qualificada e insumos é elevado (com referência a estimativa de laboratório ‘nano’ custando em média dez vezes mais que um laboratório regular).

Há ainda o risco clássico do ecossistema científico nacional: descontinuidade de financiamento e interrupção de projetos de pesquisa, com impacto direto na manutenção dos laboratórios, operação de equipamentos e retenção de talentos.

A mensagem que fica é: sem previsibilidade de investimento e sem padronização normativa robusta, a indústria fica à mercê de soluções e parcerias externas, perde tempo, e propriedade intelectual.

Por que isso importa para o setor industrial

O debate não é ‘nanotecnologia é interessante’. O debate é: quem dominar formulação nanoestruturada dominará também novos requisitos de caracterização, validação, controle de impurezas, estabilidade e desempenho in vitro/in vivo. Isso muda desenvolvimento farmacotécnico, muda desenvolvimento analítico, muda transferência de tecnologia e muda os custos da gestão da qualidade.

Em outras palavras: o tema não é do futuro. Ele já bate na porta da rotina industrial como vantagem competitiva e como risco operacional para quem continuar tratando nano como apêndice acadêmico.

No fim, capacitação é o divisor de águas. Para quem quer atuar nessa fronteira sem improviso, o caminho é combinar base técnica em desenvolvimento analítico e visão de aplicação industrial, exatamente o eixo do Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento Analítico Aplicado à Indústria Farmacêutica do CDPI Pharma, citado no próprio trabalho.

Para ler o TCC completo Revisão de Literatura: a Nanotecnologia Aplicada à Fabricação de Medicamentos, produzido por Sara Matias Silva, clique AQUI. 

Como se qualificar

Os avanços na tecnologia, a influência da informação e da era internacional, bem como a expansão da capacidade de comunicação, aceleram significativamente o impacto da globalização. Assim, o desenvolvimento industrial, especialmente no setor farmacêutico, tornou-se na última década ainda mais evidente e passou a exigir padrões de controle de qualidade mais rigorosos e que são alvos constantes de auditorias realizadas pelos órgãos governamentais.

A Pós-Graduação em Desenvolvimento Analítico e Controle de Qualidade do CDPI Pharma reuniu algumas referências no assunto para construir um curso de capacitação e formação por meio de aulas práticas em laboratório analítico e aulas ao vivo (EAD) contemplando as principais ferramentas e características necessárias exigidas para esse tema.

Saiba mais AQUI.

*Chrislaine Soares é doutora em Bioquímica e coordenadora de Biotecnologia da Faculdade CDPI

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